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Academias de ginástica em tempos de covid-19

Recebi um texto escrito por Paulo Gentil, professor de Educação Física, docente da Universidade Federal de Goiás. O texto intitulado “Porque locais para prática de atividade física devem ser considerada atividades essenciais” propõe a reabertura de locais como academias, estúdios, e outros.

Apesar de um trecho inicial do texto com informações de currículo, algo básico e essencial não foi feito: declarar o conflito de interesses. Afinal, o autor é sócio de academia de ginástica. Tal informação seria eticamente obrigatória e representaria transparência junto aos leitores.

Cabe que eu manifeste os meus dois conflitos de interesse, ambos não-financeiros:
(a) conduzo projetos com a concepção de que atividade física é essencial para a saúde (!); e
(b) sou professor de saúde coletiva. Ou seja, analiso o texto com a minha formação e atuação em educação física, mas também com as lentes da docência em vigilância em saúde e métodos em pesquisa.

Mais importante, li o texto buscando encontrar evidências para pensar o problema da prática de atividade física frente às medidas restritivas. Entretanto, o que encontrei foram alguns parágrafos sobre doenças crônicas, envelhecimento, e transtornos de humor. Nós sabemos que a atividade física é muito importante nestas condições. Mas, infelizmente, tais trechos genéricos não são sequer argumentos diretos para a abertura das academias neste momento. Por maior que seja a boa vontade na leitura e em pensar esse problema, o texto fica, no mínimo, sem sentido.

Confesso que somente as evidências descontextualizadas ou a falta de racionalidade não me fariam escrever esse contraponto. Mas julguei essa resposta necessária para esclarecer afirmações incorretas e desvirtuadas em uma situação de risco. Calar frente a isto, seria validar um texto irresponsável.

Pontuarei as correções abaixo. Os trechos originais estão em negrito-itálico.

“[…] Para esse grupo a inatividade física pode realmente ser fatal, conforme mostra um estudo em que mais de 30% de idosos frágeis faleceram 6 meses após a interrupção de um programa de exercícios.”

Abordar mortalidade em idosos extremamente frágeis em estudos que não foram planejados para tal análise é um desserviço. Na ânsia de usar o raciocínio catastrófico, há confusão nas referências. Para citar artigos, é necessário ler o que estes dizem. É necessário conhecer os dados apresentados. Porém, o artigo citado (Cadore et al, Age 2014) não tem dados de mortalidade, e nem mesmo seguimento após a interrupção do programa de exercícios. Mesmo que a citação seja reparada, a interpretação continuará errada.

“[…] As sessões de exercícios funcionam como doses de vacina que mantém a imunidade fortalecida por uma janela de tempo (14). […]”

Linguagem simples é muito desejável, sempre que possível. Mas a analogia acima é precária e pode levar a riscos desnecessários. Sabemos que o exercício regular beneficia a função imune. Mas, cabe uma pergunta básica: precisamos de academias ou estúdios abertos (reforço, em um momento de pandemia) para realização de atividade física? É sempre válido lembrar que a prática de atividade física/exercício físico vai além, muito além, de treinos em academias e estúdios.

“O possível risco de contaminação pode ser controlado por meio de ações direcionadas, como controle de distanciamento, higienização e aglomeração de pessoas. E esses riscos controláveis são incomparavelmente inferiores ao risco de manter uma grande parte da população fisicamente inativa.”

O trecho acima encerra o texto do Prof. Paulo. Somente essas duas frases abordam proteção e contágio. Não há qualquer aprofundamento. Não há informações sobre distribuição de professores e alunos. Não há menção de equipamentos de proteção individual para professores e funcionários. Não há propostas metodológicas que possam reduzir contato. Não há menção de cuidados que seriam tomados antes, durante e após as sessões. Sintomas respiratórios ou gripais, obviamente, também não são abordados. Como adiantei mais acima, o texto e a proposta não fazem sentido. O comprometimento mais evidente fica com o lado corporativo, em detrimento ao cenário complexo e com muitas incertezas.

As academias possuem estruturas físicas muito diversas no território brasileiro, e – em geral – são espaços que favorecem a contaminação. A abertura não está justificada, nem mesmo minimamente, pelo texto em análise ou pelos posicionamentos de nossos conselhos profissionais, também pobremente embasados.

A prática de atividade física é essencial. Porém, propostas para reabertura de academias deveriam estar calcadas em enorme responsabilidade. Retóricas preguiçosas e enlatadas não ajudarão. É necessário abordar o problema de forma comprometida, colocando a vida dos envolvidos em primeiro lugar. O problema é complexo e envolve aspectos biológicos, comportamentais, econômicos, sociais. Argumentos vazios sempre dão melhor lugar ao silêncio, especialmente neste momento.

Precisamos estudar e aprender, para então propor soluções reais.

Daniel Umpierre
Depto de Saúde Coletiva, Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Centro de Pesquisa Clínica, Hospital de Clínicas de Porto Alegre

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6 Comments

  1. Perrier Perrier

    Muito bom

  2. Gustavo Gustavo

    Parabéns pela dedicação do seu tempo para esclarecer assuntos indevidos gerados por invididuos que não utilizam o conhecimento de forma sábia.
    Sucesso.

  3. Cristiano Fetter Cristiano Fetter

    Daniel, não sabe o numero de vezes que recebi o texto do professor Paulo Gentil no meu whatsapp.
    Vários grupos de discussão se formaram, porém os conflitos de interesse são evidentes em grupos da área.
    Ao menos dentro de uma “bolha” que são os grupos de whatsapp que participo, algumas coisas foram unanimes, inclusive citadas por ti…o conflito de interesse claro, o texto “sensacionalista” e a falta de uma proposta de COMO realizar isso na prática.
    Na minha opinião temos um “cobertor curto” atividade física é fundamental? SIM, porém pode ser realizada na segurança do lar. Ir para uma academia com horários e grupos reduzidos com higienização completa é uma saída? Talvez. Mas, não esqueçamos que estamos no Brasil, culturalmente a tendência é começar muito bem…E, 1, 2 semanas depois? Vamos ter a mesma atenção aos protocolos de segurança ou “seguiremos a vida normal”?
    Enfim, reflexões que devemos ter como profissionais da área da saúde.

    Parabéns pelo texto e pelo posicionamento.

  4. Maria Maria

    Sensacional, professor!

  5. Eduardo Oliveira Eduardo Oliveira

    Caro professor, Daniel.

    Excelente artigo! Uma análise clara de um posicionamento equivocado. Moro em Natal e aqui tenho conversado sobre isso. Que nossa área é da saúde e que assim devemos enxergar nesse momento. Com adoção de medidas sanitárias necessárias para a proteção das pessoas. Parabéns!

    Abraço!

  6. Rudá Gonçalves Rudá Gonçalves

    Já tem bastante tempo onde as palavras do professor Paulo Gentil já não são, de maneira direta, claras e utilizáveis. Boa parte das vezes em que ele comenta ou pública algo (vide o último artigo dele publicado em uma revista internacional) são as chamadas “meias-verdades”. Esse orgulho podre cria uma massa de ignorância e, pra piorar, uma militância ferrenha.

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